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A passadeira

A passadeira
A passadeira Fernando R. Rodríguez

Luis cruzou-se outra vez com ela entre a terceira e a quarta linha da passadeira da rua do pintor Juan Gris, a apenas dois passos do quartel da Guardia Civil. Acontecia todos os dias havia exatamente 15, três semanas úteis completas. Desde o primeiro encontro, numa quinta-feira chuvosa de março, os fins de semana mal existiam para ele. Nem ao sábado nem ao domingo a via e a sua vida deixava então de fazer qualquer sentido.   

Todos os dias, precisamente às 8:20 da manhã, Luis cruzava-se com ela a caminho do escritório de sondagens onde trabalhava. Ali, num dia perguntava pela intenção de voto; no outro, se havia micro-ondas em casa; no terceiro, se concordavam que os homossexuais se pudessem divorciar, embora naqueles dias o que mais perguntasse fosse se nomeariam um Papa negro, agora que os cardeais estavam reunidos em conclave à procura de sucessor para o que acabava de morrer. Perguntava de tudo, a toda a gente, mas a ela, quando se cruzavam todas as manhãs, apenas a olhava. Foi —quase me esquecia— em meados dos anos noventa.

Cabelo curto e moreno, nariz afiadamente perfeito, olhos verdes e lábios carnudos. Nem muito alta, nem muito baixa. Nem muito gorda, nem muito magra. Uma espécie em extinção, como o lince-ibérico, as missas de domingo ou os adeptos do Real Madrid de esquerda.

Um dia, o despertador do Luis não tocou e, muito antes de os miúdos usarem o adjetivo literal para tudo e sem sentido, literalmente bateu o seu próprio recorde para estar à hora no cruzamento. E ela ali estava, com o seu passo firme, seguro, um nadinha altiva, encantadora ao extremo.

Noutra manhã, era terça-feira, Luis chegou ao encontro cinco minutos antes. Matou o tempo a coscuvilhar a montra de uma imobiliária e, entre o vendido e o reservado, algo lhe disse que devia olhar para o fundo da rua, bastante além da passadeira. Lá a viu, observando e escrevendo em algo que, apesar da distância considerável, lhe pareceu um caderno. Imaginou, porque o Luis era assim, que ela lhe estava a escrever uma carta de amor que cinco minutos mais tarde estaria nas suas mãos. Passou esse tempo e nada, nem uma coisa nem outra; o cruzamento pontual e pouco mais. Esse pouco, exageradamente enfático, prende-se com o facto de o Luis ter julgado vislumbrar um sorriso no encontro diário, mas tal também não aconteceu.

Chegou sexta-feira. 8:20 da manhã. Rua do pintor Juan Gris. Luis, pontual; ela, não. Nem rasto. Luis, desarmado e cativo. O mundo a cair-lhe em cima. Atravessou a passadeira e tudo lhe pareceu muito mais feio. Descrente, optou por dar meia-volta. Atravessou-a mais seis vezes, três em cada sentido, prestando apenas atenção ao misterioso grasnar que a Câmara Municipal tinha inserido em cada semáforo para ajudar os invisuais. Luis, tantas vezes torto em terra de cegos, não via nada, nem sequer o seu negríssimo futuro.

Às 8:25 deu-se por vencido. Chegaria ao escritório, marcaria um número ao acaso, ou *random*, como diriam anos depois os mesmos jovens de antes, e faria apenas uma pergunta, retórica para mais informações: Há direito a isto?

Estava nestes pensamentos quando uma explosão tremenda o fez perder os sentidos. Caiu no chão e deixou de ouvir. Pareceram-lhe minutos, mas passados poucos segundos conseguiu levantar-se. E o que ali viu foram, no mínimo, três corpos despedaçados. Um rasto de sangue e, pelo menos, vinte rostos em choque. Tentou ajudar, mas era ele quem precisava de ser ajudado.

A vez seguinte em que Luis a viu foi no dia em que foi à esquadra renovar o Cartão de Cidadão. Estava caducado há mais de um mês; não lhe tinha feito falta no tempo em que estivera a recuperar no hospital. Tinham passado três semanas do terrível atentado, um dos mais sanguinários da ETA na capital. Enquanto hesitava sobre qual seria o dedo polegar que a funcionária lhe pedira para sujar com tinta, ergueu a cabeça e dirigiu o olhar para a parede do fundo. Ela olhava para ele a partir de um cartaz, rodeada de gente pouco recomendável. Estavam à procura dela por todo o país.

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Fernando R. Rodríguez

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